
Engraçado… Quando eu era pequeno tudo o que eu mais queria era poder fazer parte, eu queria entender o significado das coisas, das palavras, eu queria entender as conversas dos adultos, do porque eles riam de coisas que para mim não tinham a menor graça…Então eu cresci, e nada nessa
vida me foi mais doloroso quanto a transição daquilo que eu era para aquele que eu acho que sou. Demorou um certo tempo para romper barreira da ingenuidade, as vezes tenho a impressão de nunca tê-la rompido totalmente, mas enfim… Com certo esforço entendi um pouco mais deste
mundo que me rodeava, talvez mais do que eu gostaria de entender.Procurei me encaixar em algum grupo ou lugar, mas a verdade é que eu não me encaixo nesse lugar chamado mundo. Para ser franco, não tenho a menor vontade de me tornar parte dele…Para ajudar, eu ainda nasci incompleto, não no que se refere à parte fisiológica, felizmente ainda tenho meu par de pernas, olhos e um músculo pulsante ao qual as pessoas chamam de coração. E é justamente nele que reside a minha ausência permanente.Certo dia, tentei preencher o vazio do meu coração com um pouco deste mundo que não me pertence e tudo que obtive foi um vazio ainda maior. Foi então que eu me fechei para este mundo, criei um mundo só pra mim e nele eu tenho me refugiado sem muito sucesso. Vez ou outra alguém invade o meu mundo, com promessas bonitas e olhos que conseguem transmitir a força de um sonho, mas elas não conseguem permanecer tempo suficiente para se tornarem especiais. Elas simplesmente saem deixando um pouco mais de lembranças em minha vida.E eu não sei se devo me fechar nesse mundo que criei ou me abrir para o mundo que um dia me criou. Tudo o que sei é que eu gostaria de ser o mundo de alguém, mas quem em sã consciência se arriscaria a me habitar? Eu tenho que admitir que a convivência comigo mesmo não é nada fácil, por isso mesmo sou tão compreensivo quando as pessoas desistem dessa missão chamada “eu”. Talvez fizesse o mesmo se tivesse a opção, mas eu não posso, pois eu ainda sou tudo o que tenho.Eu sou a peça perdida de um quebra-cabeça, sou um verso inacabado, uma estrofe em construção, eu sou tantas coisas e ao mesmo tempo eu não sou nada. E por mais irônico que possa parecer, eu sou, ainda que eu não queira ser a soma de todas as coisas que eu não tenho. Eu sou uma contradição ambulante.















