
Aquela era pra ser mais uma tarde apaixonante de trabalho, distribuindo flechadas e promovendo encontros que as pessoas preferem atribuir ao acaso se esquecendo assim de minha insignificante existência.Eu não sei exatamente como tudo isso começou, certo dia descobri assim meio sem querer que as minhas flechadas não machucavam, pelo contrário elas provocavam uma espécie de sentimento bom, um sentimento que as pessoas vivem a procurar e morrem para não perde-lo. Até hoje não sei ao certo se o efeito desta minha flechada é libertador ou se ele aprisiona minhas vitimas, apenas sei que a ele deram o nome de: AMOR.Eu queria poder entender tal sentimento que a mim fora confiado, poder senti-lo apenas uma vez, mas creio que eu seja o ultimo da minha espécie, isso explica porque hoje em dia esta tão difícil encontrar o verdadeiro AMOR, oras eu ainda sou um só, e não é nada fácil ser cupido nos dias de hoje.As pessoas andam com tanta pressa, em passos largos e olhares fixos para frente, que fica difícil poder acertá-las com êxito; vez ou outra eu erro a pontaria e reúno casais improváveis, destes que as pessoas olham e apontam na rua quando passeiam de mãos dadas.No começo eu me culpava pelo erro, me martirizava, porque o AMOR uma vez instaurado dificilmente se desfaz, mas hoje, olhando esses casais improváveis eu noto o quão belo é o AMOR, que faz com que as pessoas superem as diferenças tendo como base de suas atitudes o coração e não mais as convenções.Assim como a maioria das entidades da fantasia eu também não envelheço, presencio o começo, meio e fim de cada flechada dada, às vezes o fim chega mais cedo do que o imaginado e as pessoas temem não mais sentirem o que um dia eu as proporcionei. Mas existem casos e casos, carrego comigo um arsenal de flechas infinitas que podem muito bem acertar uma mesma pessoa mais de uma vez. Porém retirar uma de minhas flechas não é tarefa fácil, as pessoas dizem que não sentem mais nada, que superaram, mas eu sei quando aflecha ainda esta lá.E é tão triste ver as pessoas mentindo pra si mesmas e querendo acreditar em suas mentiras… Depois de muito observar, cheguei à conclusão de que as minhas flechas podem não doer quando entram, mas doem inevitavelmente quando saem…E foi naquela tarde apaixonante de trabalho que tudo mudou, como de costume procurei cautelosamente meu alvo, observei por um tempo, encontrei a vitima ideal: solitária, carente e com muito amor pra dar. Eu podia ler tudo isso em sua áurea (sim eu tenho essa estranha habilidade), mas havia algo de diferente dessa vez, algo que eu não conseguia ler, o que de certa forma tornou aquele alvo mais interessante que todos os outros.Eu mirei e mantive com firmeza a flecha esticada em minhas mãos para diminuir as chances de erro; com a flecha lançada eu vivi aquele momento de expectativa que aos olhos dos outros poderia passar em segundos, mas para mim foi uma pequena eternidade onde vários pensamentos tomaram conta de minha mente.Fiquei SURPRESO! Na verdade achei que os meus
olhos estavam me enganando, não havia apenas uma flecha cravada na pobre alma, agora haviam duas, mas uma já estava lá! COMO NÃO NOTEI ISSO ANTES?! Desesperado, me aproximei e tentei retirar a flecha que levianamente eu atirei, eu tremia de aflição e culpa; e foi em um descuido ainda maior que o meu dedo se cortou na tentativa frustrada de retirar a mesma flecha que eu havia lançado. Naquele exato momento, eu que sempre fuiinvisível aos olhos de todos passei a ser visto por uma única pessoa.Eu tive que aceitar a perda do controle momentâneo, eu tive que aceitar os sentimentos que estavam em mim o tempo todo adormecidos. Na verdade eu não tive escolhas, quando me dei conta eu havia deixado de ver os sentimentos em terceira pessoa e passei a vivenciá-los.Era tudo novo e cabia tudo em um único olhar, porque da mesma forma que somente ela me via eu soube naquele momento que somente eu a veria tal como ela realmente era.se hoje o mundo tem um pouco mais de AMOR é porque ela estava ao meu lado, me ajudando nessa tarefa apaixonante de se apaixonar todo dia pela mesma pessoa.











